2.1 Como se demonstra parentesco linguístico
O método comparativo reúne formas de línguas cuja relação é suspeitada, estabelece correspondências sonoras recorrentes e reconstrói o sistema mais econômico capaz de gerar os reflexos observados. A unidade de prova não é uma palavra isolada, mas uma série de correspondências em vocabulário básico e morfemas gramaticais, sob condições fonológicas repetíveis. Reconstruções são hipóteses inferenciais marcadas por asterisco — por exemplo, Proto-Semítico *bayt- “casa” — e não transcrições de gravações antigas (Rankin 2003; Campbell 2013; Munteanu 2022).
Uma relação convincente deve explicar simultaneamente:
sons: por que um fonema ancestral produz resultados regulares em cada ramo;
morfologia: pronomes, flexões nominais e verbais, plural, gênero, caso e concordância;
léxico básico: partes do corpo, parentesco, números, ações elementares e elementos naturais;
distribuição: onde e quando as variedades são atestadas;
inovações compartilhadas: mudanças improváveis ocorridas apenas num subgrupo;
exceções: empréstimos, analogia, tabu, onomatopeia e falhas documentais.
2.2 Vocabulário técnico indispensável
| Termo | Definição operacional | O que não demonstra sozinho |
|---|---|---|
| Semelhança acidental | Parecido limitado sem padrão recorrente; inevitável entre milhares de formas curtas | Parentesco |
| Empréstimo | Forma transferida por contato, frequentemente com objeto, tecnologia, religião ou prestígio | Ancestralidade comum de toda a gramática |
| Cognatos | Formas herdadas de um ancestral comum, demonstradas por correspondências regulares | Identidade sonora perfeita |
| Correspondência fonológica regular | Relação recorrente entre sons em posições comparáveis, por exemplo PS *θ > hebraico š, mas árabe θ | Que toda exceção seja impossível |
| Ancestralidade linguística | Transmissão intergeracional de um sistema, com mudanças acumuladas | Que povos ou genes sejam idênticos |
| Contato linguístico | Influência entre comunidades bilíngues: empréstimo, convergência estrutural, calque | Filiação genealógica necessária |
| Sprachbund | Área em que línguas, inclusive não aparentadas, convergem por contato prolongado | Origem em uma única língua recente |
| Língua documentada | Língua acessível por inscrições, manuscritos ou gravações | Momento em que começou a ser falada |
| Língua reconstruída | Modelo inferido a partir de descendentes | Texto realmente preservado |
| Proto-língua | Ancestral comum reconstruído de um conjunto de línguas | “Primeira língua humana” |
2.3 Controles contra falsa etimologia
Palavras curtas e significados vagos geram muitas semelhanças por acaso. Para testar uma proposta “X deriva do hebraico”, foram aplicados cinco controles: (1) forma antiga, não apenas pronúncia moderna; (2) sentido histórico, não associação livre; (3) correspondência em dezenas de conjuntos; (4) morfologia e gramática, não apenas substantivos; (5) rota cronológica e geográfica plausível. Sem esses controles, trocar, omitir ou inverter sons conforme a necessidade torna qualquer língua “derivável” de qualquer outra.
2.4 Reconstrução, filogenia e glotocronologia
Árvores linguísticas representam hipóteses sobre inovações compartilhadas. Elas não negam contato, dialetos em rede ou fronteiras graduais. Para o semítico, alguns nós são robustos — semítico oriental versus os demais, cananeu, aramaico — enquanto a posição precisa do ugarítico, a estrutura do semítico ocidental e a relação entre certos ramos meridionais permanecem debatidas (Rubin 2008; Pat-El e Wilson-Wright 2018; Huehnergard e Pat-El 2019).
A glotocronologia clássica presume taxas relativamente constantes de substituição lexical. Essa premissa falha com frequência: taxas variam por língua, época, domínio semântico e contato. Métodos bayesianos modernos podem comparar cenários quando possuem dados codificados e calibrações independentes, mas não transformam datas profundas em certezas. Neste dossiê, datas de proto-línguas são intervalos orientadores, não “anos de nascimento” (Gray et al. 2011; Heggarty 2014).
2.5 Hierarquia de evidências
Foram priorizados estudos revisados por pares, capítulos e monografias de Cambridge, Oxford, Brill, De Gruyter e Routledge; descrições linguísticas de especialistas; corpora epigráficos; e fontes primárias para a história intelectual. Páginas apologéticas foram usadas somente para formular a versão atual dos argumentos populares, jamais como autoridade para datas ou classificações. Quando uma classificação ou data é disputada, o desacordo é explicitado.