10.1 O grupo cananeu
“Cananeu” não é uma única língua uniforme. É um conjunto de variedades próximas cujas fronteiras se relacionam a geografia, política e redes de escribas. Hebraico e fenício possuem os maiores corpora; moabita é claro, mas menor; amonita e edomita são conhecidos por material reduzido, sobretudo inscrições curtas, selos e nomes. A escassez exige evitar descrições excessivamente precisas.
10.2 Características compartilhadas
As variedades cananeias mostram, em graus e contextos diferentes:
a chamada mudança cananeia, pela qual *ā tônico/antigo resulta em ō em ambientes relevantes;
artigo definido prefixado h- em várias variedades;
desenvolvimento de pronomes e formas verbais comuns;
vocabulário regional herdado e padrões ortográficos próximos;
fusões de consoantes proto-semíticas que contrastam com preservações em árabe/ugarítico.
A mudança cananeia é ilustrada didaticamente por hebraico šālōm ao lado de árabe salām, mas o fenômeno não deve ser reduzido a uma regra sem condições. Cronologia relativa, acento, qualidade vocálica e diferenças entre fenício, hebraico e glosas de Amarna são debatidos (Pat-El 2016; Suchard 2019). Ugarítico, embora geograficamente próximo e semítico noroeste, não apresenta a mesma mudança como inovação cananeia.
10.3 Comparação de perfis
| Variedade | Traços compartilhados | Inovações/particularidades | Qualidade do corpus |
|---|---|---|---|
| Hebraico | Mudança cananeia, artigo h-, vocabulário e morfologia cananeus | Desenvolvimentos israelitas/judaítas, tradição literária bíblica, mudanças vocálicas próprias | Extenso, mas heterogêneo no tempo |
| Fenício/púnico | Mudança cananeia e outras inovações do grupo | Reduções vocálicas, tradição gráfica e expansão mediterrânica próprias | Amplo, embora muitas inscrições sejam formulares |
| Moabita | Proximidade grande com hebraico; artigo e morfologia cananeia | Formas como plural masculino em -n em contextos e escolhas lexicais próprias | Pequeno; Estela de Mesa é central |
| Amonita | Características cananeias e onomástica regional | Diagnósticos limitados; algumas formas distintas | Muito pequeno |
| Edomita | Elementos cananeus e nomes próprios | Classificação fina difícil; contato aramaico/árabe posterior | Muito pequeno |
10.4 Qual modelo explica melhor?
Modelo A — todas derivam do hebraico: prevê uma fase hebraica anterior comum e mudanças regulares que transformem essa fase em fenício, moabita, amonita e edomita. O problema é que “hebraico” teria de ser redefinido para significar “Proto-Cananeu”, eliminando justamente as inovações que distinguem o hebraico. Não há documentação de exportação linguística israelita que produza todos esses dialetos.
Modelo B — descendência de ancestrais cananeus compartilhados: prevê inovações comuns, diferenças regionais, sobreposição dialetal e registros paralelos. É exatamente o padrão observado. Portanto, B possui maior poder explicativo e requer menos suposições ad hoc.