PARTE 8 — PERSEGUIÇÕES RELIGIOSAS ATUAIS
Capítulo 44 — Nacionalismos religiosos
A violência religiosa atual não aparece apenas em grupos extremistas ou em guerras declaradas. Muitas vezes ela aparece dentro de Estados modernos, eleições, partidos, escolas, leis, redes sociais e discursos de identidade nacional. O nacionalismo religioso nasce quando uma religião deixa de ser apenas fé de parte da população e passa a ser tratada como essência da nação.
Nesse modelo, o país verdadeiro pertence a uma religião dominante. As minorias podem até viver ali, mas são vistas como toleradas, suspeitas, estrangeiras internas ou ameaças à identidade nacional.
Textos e documentos atuais analisados
Relatórios internacionais de liberdade religiosa — Mostram que restrições governamentais e hostilidades sociais contra grupos religiosos continuam sendo problema global. O Pew Research Center informou que, em 2022, 59 países tinham níveis altos ou muito altos de restrições governamentais à religião, o maior número registrado desde o início do estudo em 2007. (Pew Research Center)
Relatório USCIRF 2026 — Avalia violações de liberdade religiosa durante o ano de 2025 e recomenda países para categorias de preocupação, incluindo países onde governos cometem ou toleram violações graves de liberdade religiosa. (uscirf.gov)
Leis anticonversão — Em alguns países, leis contra conversão religiosa são usadas para vigiar minorias, punir missionários, controlar casamentos inter-religiosos ou intimidar comunidades vulneráveis.
Leis de blasfêmia — Em vários contextos, acusações de blasfêmia podem gerar prisão, violência popular ou perseguição social.
Propaganda nacionalista — Minorias religiosas são apresentadas como traidoras, agentes estrangeiros, impuras, terroristas, antinacionais ou ameaça demográfica.
Contexto histórico
O nacionalismo religioso moderno não é simplesmente religião tradicional. Ele é uma fusão entre fé, Estado, povo, território e identidade política. A religião passa a funcionar como marcador de pertencimento nacional.
Isso pode acontecer em ambientes de maioria hindu, cristã, muçulmana, budista, judaica ou outra. O mecanismo é parecido: uma tradição religiosa é tratada como alma do país, enquanto as outras são vistas como corpos estranhos.
A modernidade não eliminou a violência religiosa. Em muitos lugares, apenas mudou sua linguagem. Antes, dizia-se “inimigo de Deus”. Hoje, muitas vezes se diz “inimigo da nação”.
Análise crítica
O nacionalismo religioso funciona por uma troca perigosa: Deus passa a legitimar a nação, e a nação passa a proteger uma imagem de Deus. Quem critica o poder político parece atacar a fé. Quem pertence a outra religião parece ameaçar o povo.
A minoria religiosa fica numa posição impossível. Se mantém sua identidade, é vista como separatista. Se pede direitos, é acusada de privilégio. Se denuncia violência, é chamada de inimiga nacional. Se se organiza, é suspeita de conspiração.
Esse mecanismo não precisa começar com massacre. Ele começa com linguagem: “eles não são daqui”, “eles estão tomando nosso país”, “eles querem destruir nossa cultura”, “eles não respeitam nossa fé”.
Problema moral
O problema moral do nacionalismo religioso é que ele transforma cidadania em pertença espiritual. A pessoa deixa de ser cidadã plena pelo simples fato de nascer no país e passa a ter sua legitimidade medida pela religião.
Isso destrói a ideia de igualdade. Uma democracia não pode funcionar plenamente quando uma parte da população é tratada como proprietária espiritual da nação e outra como hóspede tolerada.
Conclusão
O nacionalismo religioso é uma das formas mais atuais da violência sagrada. Ele raramente começa dizendo “vamos perseguir”. Ele começa dizendo “vamos proteger nossa identidade”.
Mas, quando a identidade protegida é definida por uma fé dominante, a liberdade dos outros vira ameaça. E toda ameaça, cedo ou tarde, pede controle.