“Até o dia de hoje”: marcas de distância temporal
Este estudo analisa a expressão “até o dia de hoje” e fórmulas semelhantes dentro da Torá e da literatura histórica bíblica. À primeira vista, a expressão pode parecer apenas um detalhe narrativo. Porém, em crítica textual e literária, ela é uma das marcas mais importantes de distância temporal entre o evento narrado e o momento em que o texto foi escrito, editado ou atualizado.
Quando um narrador diz que algo permanece “até hoje”, ele não está apenas contando o passado. Ele está comparando o passado com o presente de sua própria comunidade. Isso sugere que o narrador escreve a partir de uma época posterior aos eventos descritos. No debate sobre autoria mosaica, essa expressão se torna especialmente relevante porque aparece em textos atribuídos tradicionalmente a Moisés, inclusive em contextos onde Moisés ainda não poderia estar falando de um “hoje” posterior.
1. Textos bíblicos principais
Deuteronômio 34:6
“Este o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura.”
Gênesis 22:14
“E pôs Abraão por nome àquele lugar: O Senhor proverá. Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.”
Deuteronômio 3:14
“Jair, filho de Manassés, tomou toda a região de Argobe [...] e lhes chamou Basã-Havote-Jair, até ao dia de hoje.”
Gênesis 26:33
“Ele o chamou Seba; por isso, Berseba é o nome daquela cidade até ao dia de hoje.”
2. O problema em uma frase
Expressões como “até o dia de hoje” pressupõem um narrador que vive depois do evento narrado e compara esse evento com uma realidade ainda existente em seu próprio tempo. Em textos atribuídos integralmente a Moisés, isso cria dificuldade quando o “hoje” parece posterior à vida de Moisés ou à época narrada.
3. O que significa “até o dia de hoje”?
A expressão “até o dia de hoje” funciona como uma fórmula de continuidade. Ela informa ao leitor que um nome, costume, ruína, memorial, tradição, lugar ou situação permanece conhecido no tempo do narrador. O texto cria uma ponte entre passado e presente.
Em literatura histórica antiga, esse recurso é comum. O narrador explica uma realidade presente por meio de uma história de origem. Por exemplo: determinado lugar tem certo nome “até hoje” porque um ancestral o nomeou; determinada ruína existe “até hoje” porque uma cidade foi destruída; determinado costume continua “até hoje” porque um evento fundador o estabeleceu.
Portanto, a expressão não é neutra. Ela revela o ponto de vista do narrador. Quem diz “até hoje” fala de um presente situado depois do acontecimento narrado.
4. A expressão como marca editorial
Na crítica bíblica, fórmulas como “até hoje”, “naquele tempo”, “antes”, “outrora” e “como se diz até hoje” frequentemente são analisadas como marcas editoriais. Elas indicam que o texto não apenas preserva uma tradição, mas também a comenta para leitores posteriores.
Isso não significa que cada ocorrência seja necessariamente uma interpolação tardia. Em alguns casos, o próprio narrador original pode usar a expressão. O ponto é que a fórmula ajuda a identificar o horizonte temporal do narrador. Quando esse horizonte parece posterior ao personagem a quem a autoria é atribuída, surge a dificuldade.
No caso da Torá, a questão é especialmente sensível porque a tradição atribui o Pentateuco a Moisés. Se o texto contém comentários que parecem vir de um momento posterior, a autoria mosaica precisa ser qualificada.
5. Deuteronômio 34:6: o caso mais forte
Deuteronômio 34:6 é o exemplo mais evidente. O texto diz que ninguém conhece “até hoje” o lugar da sepultura de Moisés. Essa frase pressupõe que Moisés já morreu, foi sepultado e que algum tempo passou sem que sua sepultura fosse localizada.
Esse “hoje” não pode ser naturalmente o presente de Moisés antes de sua morte. É o presente de uma comunidade posterior que olha para trás e constata: o túmulo de Moisés continua desconhecido.
Por isso, Deuteronômio 34:6 é uma evidência forte de narrador pós-mosaico. Mesmo tradições religiosas que defendem a autoridade da Torá frequentemente reconhecem que essa seção final foi escrita por Josué ou por outro escriba inspirado.
6. Gênesis 22:14: o nome do lugar e a memória cultual
Gênesis 22 narra o episódio da amarração de Isaque, conhecido na tradição judaica como Akedah. Depois que Abraão encontra o carneiro e o sacrifício de Isaque é impedido, ele dá ao lugar o nome “O Senhor proverá”. O narrador então acrescenta: “Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.”
A frase funciona como explicação de uma tradição cultual ou proverbial conhecida pelo público do narrador. O lugar recebe um significado teológico, e esse significado permanece em uma expressão repetida “até hoje”.
O problema crítico é que essa fórmula parece pressupor uma tradição posterior associada ao “monte do Senhor”. Em leituras históricas, muitos estudiosos veem aqui uma ligação com a geografia cultual posterior de Israel, possivelmente com a tradição de Jerusalém/Moriá. Assim, a narrativa patriarcal é conectada a uma memória cultual posterior.
7. Deuteronômio 3:14 e a memória territorial
Deuteronômio 3:14 fala de Jair, filho de Manassés, que tomou a região de Argobe e a chamou Havote-Jair “até ao dia de hoje”. Aqui a fórmula está ligada a território e nome geográfico.
O narrador não está apenas informando uma conquista. Ele explica por que determinada região é conhecida por certo nome no tempo do leitor. Isso se aproxima do que acontece com Dã/Laís: nomes de lugares funcionam como pistas de memória histórica e de atualização geográfica.
Mesmo que o evento territorial seja antigo, a frase “até hoje” revela que o texto está interessado em explicar a continuidade do nome para uma comunidade posterior.
8. Gênesis 26:33 e a explicação de Berseba
Em Gênesis 26:33, Isaque dá nome a um poço, e o narrador conclui que por isso a cidade se chama Berseba “até o dia de hoje”. A estrutura é etiológica: uma narrativa explica a origem de um nome ainda usado.
O texto não apenas conta algo sobre Isaque. Ele explica ao leitor por que uma cidade conhecida tem aquele nome. Esse tipo de explicação é típico de tradições que preservam memória local e a conectam aos patriarcas.
O ponto crítico não é negar que a tradição possa ser antiga. O ponto é reconhecer que a forma narrativa se dirige a leitores que conhecem Berseba como cidade nomeada e precisam de uma explicação de origem.
9. A função etiológica da expressão
Muitas ocorrências de “até hoje” têm função etiológica. Uma etiologia é uma explicação de origem: por que um lugar se chama assim? Por que um costume existe? Por que uma ruína permanece? Por que uma tradição é repetida?
Na Bíblia, etiologias são frequentes. Elas conectam o passado ancestral ao presente do povo. Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e Josué não são apenas personagens do passado; eles dão sentido a nomes, lugares, fronteiras e práticas conhecidas por gerações posteriores.
Isso é literariamente poderoso, mas também revela que os textos foram moldados para comunidades que viviam depois dos eventos narrados.
10. O problema para a autoria mosaica rígida
A autoria mosaica rígida afirma que Moisés escreveu toda a Torá em sua forma final. O problema das expressões “até hoje” é que muitas delas parecem pressupor um presente narrativo posterior a Moisés ou posterior ao evento narrado.
Em alguns casos, um defensor da autoria mosaica poderia dizer que Moisés escreveu “até hoje” referindo-se ao seu próprio tempo. Essa explicação pode funcionar para certas passagens. Porém, não funciona bem para Deuteronômio 34:6, pois ali o “até hoje” é posterior à morte de Moisés.
Além disso, quando a fórmula aparece repetidamente associada a nomes de lugares, tradições e memórias, ela reforça a hipótese de que o texto recebeu molduras editoriais para orientar leitores posteriores.
11. Discussão acadêmica
Em estudos críticos do Pentateuco, expressões como “até hoje” são usadas como evidência de que o texto possui camadas narrativas e editoriais. Elas não provam, isoladamente, uma data específica para todo o Pentateuco, mas mostram que a forma final do texto não é simplesmente transcrição direta de uma única época.
David Carr e Karel van der Toorn destacam em suas obras a importância da cultura escribal na formação da Bíblia Hebraica. Textos antigos eram copiados, transmitidos, ensinados, expandidos e atualizados. Notas que conectam eventos antigos ao presente do leitor são exatamente o tipo de fenômeno esperado em uma cultura de escribas.
Richard Elliott Friedman e Joel Baden, ao discutir a composição do Pentateuco, tratam esses sinais como parte de um quadro maior de fontes, duplicações, tensões e marcas editoriais. A expressão “até hoje” não é o argumento inteiro, mas uma peça no argumento cumulativo.
12. Resposta judaica tradicional
A tradição judaica pode lidar com essas expressões de várias formas. Em alguns casos, elas podem ser lidas como parte da própria linguagem da Torá, que fala de modo compreensível para todas as gerações. Em outros casos, admite-se que Josué ou escribas inspirados tenham completado certos trechos, especialmente no final de Deuteronômio.
Outra possibilidade é entender que a Torá, por ser revelação divina, pode falar a partir de um horizonte que transcende o tempo humano comum. Nesse caso, “até hoje” não seria problema, pois Deus conheceria o futuro.
A leitura crítica, porém, não trabalha com onisciência divina como explicação literária. Ela observa como a frase funciona no texto: como comentário de continuidade feito por um narrador posterior.
13. Resposta cristã e apologética
Intérpretes cristãos conservadores frequentemente aceitam que pequenas atualizações geográficas ou explicativas tenham sido feitas no texto por escribas inspirados. Essa resposta busca preservar a autoridade bíblica sem negar completamente os sinais de posterioridade.
Essa posição é mais forte do que negar o fenômeno. Porém, ela implica que a autoria mosaica deve ser entendida de forma flexível: a Torá seria mosaica em substância ou tradição, mas não necessariamente em cada palavra da forma final.
Uma resposta mais rígida afirma que Moisés escreveu tudo por revelação profética, inclusive fórmulas que parecem posteriores. O problema é que essa resposta torna a análise histórica impossível. Qualquer sinal de edição poderia ser explicado como previsão sobrenatural.
14. Avaliação dos contra-argumentos
O melhor contra-argumento é o da atualização textual. Ele reconhece que expressões posteriores podem ter sido inseridas ou preservadas para ajudar leitores. Mas, justamente por isso, ele confirma a existência de processo editorial.
A explicação profética é teologicamente possível, mas academicamente fraca. Ela não explica por que a fórmula se comporta exatamente como comentário histórico comum em literatura antiga.
A tentativa de tratar todos os “até hoje” como expressões do tempo de Moisés precisa ser aplicada caso por caso. Em Deuteronômio 34:6, ela praticamente não funciona sem apelar a revelação sobrenatural.
15. Relação com outros sinais de posterioridade
A expressão “até hoje” deve ser analisada em conjunto com Dã/Laís, Deuteronômio 34 e Gênesis 36:31. Esses casos são diferentes, mas apontam para o mesmo fenômeno: a Torá contém marcas de um narrador ou editor que fala depois dos eventos narrados.
Dã/Laís é um anacronismo geográfico. Deuteronômio 34 é um epílogo pós-mosaico. Gênesis 36:31 pressupõe a monarquia. “Até hoje” é uma fórmula editorial de continuidade temporal. Juntos, esses sinais tornam a autoria mosaica integral e rígida muito difícil de sustentar historicamente.
16. O que esse caso prova e o que não prova
As expressões “até hoje” não provam sozinhas que todo o Pentateuco é tardio. Também não mostram automaticamente que cada narrativa foi inventada depois. Elas devem ser usadas com precisão.
O que elas provam, ou pelo menos sugerem fortemente, é que a forma final do texto foi moldada para leitores posteriores. O texto não apenas narra; ele explica, atualiza e conecta o passado à memória presente de Israel.
Portanto, o argumento correto não é “a expressão até hoje destrói a Torá”. O argumento correto é: “essas fórmulas revelam a presença de molduras narrativas e editoriais posteriores”.
17. Conclusão acadêmica
A expressão “até o dia de hoje” é uma ferramenta literária de memória. Ela conecta evento antigo e presente narrativo. Em muitos textos bíblicos, isso funciona como explicação de nomes, lugares, costumes e tradições ainda reconhecidos pelo público do narrador.
No debate sobre autoria da Torá, essas expressões são importantes porque indicam que a forma final do texto contém comentários feitos a partir de um horizonte posterior. O caso mais claro é Deuteronômio 34:6, mas o fenômeno aparece em várias passagens.
Assim, “até hoje” é uma pequena frase com grande peso crítico. Ela ajuda a mostrar que a Torá é uma tradição literária viva, transmitida, interpretada e atualizada, não simplesmente um documento congelado em uma única redação mosaica.
Bibliografia e fontes para aprofundar
Bibliografia orientadora impressa
- David M. Carr, The Formation of the Hebrew Bible
- Karel van der Toorn, Scribal Culture and the Making of the Hebrew Bible
- Richard Elliott Friedman, Who Wrote the Bible?
- Joel S. Baden, The Composition of the Pentateuch
- Konrad Schmid, The Old Testament: A Literary History
- John Van Seters, The Pentateuch: A Social-Science Commentary
- Jeffrey H. Tigay, Deuteronomy